APRESENTAÇÃO

Meu primeiro contato com a arte de Humberto Espíndola foi quando tinha 16 anos, através de um convite que Flávio Espíndola fizera-me para irmos até a casa de Humberto "fazer um som por lá" (na época, Humberto morava em Cuiabá, e quem por lá residia era Jerry Espíndola). Lembro-me que aceitei o convite na base do 'oba-oba', só pra me divertir. Eu, era alheio à obra de Humberto e seus irmãos. Eu, adolescente rejeitava a cultura brasileira, não lia livros brasileiros, não ouvia discos de mpb e tão pouco era conhecedor da arte plástica que ia além de Salvador Dali ou Gustav Klimt.

Quando cheguei lá, encontrei Guto Espíndola (filho de Valquíra, irmã de Humberto, além de ser meu amigo de escola), Luzmarina e Iara (ambas filhas de Alzira, irmã de Humberto), e fora eu e Flávio, Felipe (ex-baterista do Kadeira Elétrica, no qual Flávio e Guto eram integrantes) fora conosco. O som que fizemos naquele dia, sinceramente não me recordo de quase nada, só uma vaga lembrança de um blues que toquei e Iara acompanhou, mas também não lembro qual era a música ou o tom. A única coisa que me lembro daquele dia é do Boi do Sábado. Nenhuma outra obra exposta nas paredes daquela casa obteve tanta minha atenção naquele dia. Meus olhares estavam direcionados para ele — a caricatura de Ápis no Boi do Sábado.

Depois disso, por um longo período não voltei à casa de Humberto. Vi duas mostras de Humberto, ambas no Centro Cultural J.O. Guizzo. Um tempo depois no meu período de universidade, foi quando comecei a ter mais acesso ao tema Bovinocultura. Os poucos livros e as poucas revistas que haviam publicado esta pauta — Bovinocultura, diga-se de passagem, 'são' livros e revistas undergrounds, de difícil acesso. O primeiro documento que li sobre Humberto, foi um artigo de Maria da Glória Sá Rosa — "O culto da Bovinocultura", publicado na revista regional MS Cultura. O artigo era exaltativo, parecia Deus no céu e Humberto na terra. Depois tive acesso ao livro "Memória da arte em MS", também da Maria da Glória em parceria com Maria Adélia Menegazzo, um livro muito bem organizado e com depoimentos culturalmente prestativos. Aí que fui dar importância à pessoa carinhosamente apelidada de professora Glorinha.

Por mais que já conhecesse Flávio, Guto, Celito e Jerry, e minha convivência sempre foi maior com Flávio (filho de Sérgio, irmão de Humberto) e Celito (irmão de Humberto). Jerry conheci através de uma entrevista que eu fizera com ele, para colher dados de sua vida pessoal que, entraria em minha monografia. O cara foi super gente-fina comigo, e passamos a nos vermos mais, e por conseqüente trabalharmos juntos em muitos projetos. Trabalhando num desses projetos que voltei (depois de anos) à casa de Humberto, coincidência ou não, estava a serviço da "polca-rock".

Depois de trabalhar na produção gráfica do show Espíndola Canta, e ter em mãos um punhado de fotos do arquivo familiar de Humberto, e muitas idas mais à sua casa para 'tentar em vão' achar algum documento, lembro-me que, numa desculpa de Humberto por não termos encontrado algo que procurávamos, num lapso (quase que de indignação) me ofereci para trabalhar na casa dele e organizar todos os arquivos lá existentes. Humberto surpreso com o fato, de cara aceitou, e logo depois estava trabalhando lá.

Parecia até sacanagem, mas no primeiro dia de trabalho, me dispuseram duas caixas de madeira enormes contendo diários, esboços, fotos de família, cadernos de escola das irmãs, correspondência e mais correspondências. Saí de lá tarde da noite, torto de tanta informação. O Humberto tirava sarro dizendo que brotava caixas de arquivos em todos os cantos da casa, mas a brincadeira era séria. Em todos os quartos, os guarda-roupas embutidos estavam lotados de arquivos que iam de revistas, livros perdidos, roupas, pratarias, objetos familiares, etc. etc. Minha reação foi de desespero. Eu comecei a juntar as caixas num canto só, e só pra piorar um pouco, Humberto começou uma reforma em sua casa. Esse 'cantinho só' onde juntavas as caixas, começou a andar pela casa, teve dias em que o único lugar disponível da casa para trabalhar era a sala de visita.

Quando o amontoado de caixas que havia juntado estavam quase concluídos, Humberto retira um quadro da parede que continha um enorme vão por trás, contendo mais caixas. Minha sorte nessas caixas, é que a maioria do conteúdo que haviam nelas, assim como um arquivo de metal que há na sala de visita, já haviam passado pelas mãos hábeis de Aline Figueiredo, e estavam muito bem organizados, só precisavam saber o quê continha ali. Conforme a reforma da casa avançava, cheguei a trabalhar um ou dois dias dentro da marcenaria da casa, onde descobrira que lá, haviam um outro grande amontoado de caixas. Eram nestas caixas que apareceram a maioria do conteúdo de toda a trajetória artística dos irmãos — Tetê, Geraldo, Celito, Alzira, Jerry e Sérgio.

Depois de organizado todo este material, veio a digitalização de tudo. Scanear foto por foto, e receber tratamento de cor e correção temporal. Digitar textos e mais textos e revisa-los. E por fim, montar o site oficial de Humberto que viria a ser a meta final do trabalho. O site oficial está aí, bem ao lado, e cada foto, cada obra, cada texto, teve uma rigorosa supervisão de Humberto. Praticamente não há um único nome, dimensão, ou cor de uma obra errada exposta no site oficial. Claro que muita coisa viria a ficar de fora do site oficial, tendo em vista que sua obra exposta ao público (até então) foi planejada e estruturada, e há muita pintura feita fora do tema Bovinocultura, além de sua extensão musical e literária. É este lado obscuro de Humberto que (com o tempo) será mostrado no site Labirinto do Minotauro, numa visão parecida aquela do artigo da professora Glorinha — "O culto da Bovinocultura", porém cultuando o artista. É o legado dele enfatizado (e fã-tizado) por mim, para vocês.

Altair dos Santos
setembro de 2005

 
 

"Espíndola transmitiu, também, com a imagem do boi, a capacidade dual que o homem lhe impõe, isto é, o terno animal dos pastos também será besta satânica. Com as patas expressa o massacre, com os chifres a opressão e com o corpo o poder. Humaniza o boi para traduzir a força sócio-política e econômica. Associa-o ao Minotauro, símbolo da dualidade onde o homem e o animal se confundem. Assim, minotauros de hoje, famélicos senhores bovinos transitam engalanados de uniforme, estrelas, dragonas e esporas, enquanto devoram uma sociedade marginalizada em seus mordazes labirintos". (In, A Propósito do Boi, de Aline Figueiredo, ed. UFMT, Cuiabá, 1994, cap.9)